Angelita Manoela Rodrigues, de 40 anos, foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro dentro de um supermercado no último domingo (16), em São Paulo. Antes do feminicídio, porém, a violência já atravessava sua vida profissional. Segundo relato de uma colega de trabalho, Angelita aparecia no trabalho com marcas das agressões e chegou a ficar vários dias sem trabalhar por causa dos ferimentos.
O caso expõe uma realidade que precisa ser enfrentada também pelos trabalhadores coletivamente: violência doméstica não fica do lado de fora da fábrica ou do local de trabalho. Ela ameaça a vida, compromete a saúde, provoca faltas, reduz a autonomia financeira e pode colocar o próprio emprego da vítima em risco.
Cláusula garante afastamento sem prejuízo no salário
Desde 2024, o Sindicato conquista em Convenções e Acordos Coletivos cláusulas que garantem licença remunerada para trabalhadoras vítimas de violência doméstica, mediante apresentação de boletim de ocorrência. Mais de 2.200 metalúrgicas de empresas como Lenovo, Samsung, Dell, Cebi, Agritech, Lavorwash, Comet, TecVidro, Hine, Sigrist e Nidec já estão protegidas por períodos que variam de 10 a 90 dias, conforme a empresa e o instrumento coletivo.
Fruto da organização coletiva, a trabalhadora que precisa sair de casa, procurar proteção, cuidar dos filhos, buscar atendimento médico ou reorganizar a própria vida não pode ser obrigada a escolher entre se proteger ou proteger seu salário. Mas precisamos avançar.
A vítima também precisa ter o emprego garantido
O afastamento remunerado perde parte de sua força se a trabalhadora retornar sob o medo de perder o emprego pouco tempo depois.
Por isso, precisamos avançar para uma garantia de emprego após o retorno da licença por violência doméstica. A proteção à trabalhadora não pode terminar no último dia do afastamento.
A dependência econômica é uma das barreiras que dificultam o rompimento de relações violentas. Preservar salário e emprego significa ampliar as condições materiais para que a mulher consiga se recompor e reconstruir sua vida com autonomia.
Esta também é uma pauta de Campanha Salarial. Os direitos das mulheres precisam estar nas Convenções e Acordos Coletivos e protegidos pela organização do conjunto dos trabalhadores.
SP bate recorde de feminicídios
A urgência fica ainda mais evidente diante dos números.|
São Paulo registrou 141 casos de feminicídio no primeiro semestre de 2026, com alta de 10% sobre igual período de 2025 e o maior resultado desde o início da série histórica da SSP-SP, em 2018. O interior concentrou 96 ocorrências.
É nesse cenário que o Sindicato participa da campanha Tarcísio Inimigo das Mulheres, construída pela Marcha Mundial das Mulheres junto a movimentos feministas, populares e sindicais.
A campanha cobra do Governo do Estado políticas públicas, orçamento e estrutura capazes de prevenir a violência e proteger as vítimas. Segundo a articulação, houve forte redução dos recursos da Secretaria de Políticas para a Mulher e baixa execução das verbas previstas para ações de enfrentamento à violência.
O Estado terminou 2025 com 266 feminicídios, número confirmado também em dados citados pela Assembleia Legislativa de São Paulo.
Proteção é responsabilidade coletiva
Lei, delegacia, acolhimento, saúde pública, renda, moradia e emprego fazem parte da mesma rede de proteção.
Dentro dos locais de trabalho, empresas precisam acolher e respeitar as vítimas. Colegas não devem tratar sinais de violência como “problema de casal”. CIPAs e sindicatos também têm papel fundamental na orientação e no encaminhamento para a rede de atendimento.
Para o Sindicato, a direção é ampliar a licença remunerada, conquistar estabilidade no retorno, fortalecer a rede pública e garantir condições para que nenhuma trabalhadora permaneça submetida à violência por medo de perder salário, emprego ou o sustento dos filhos.
A vida das trabalhadoras não termina quando elas batem o ponto.
Nossa organização também não.