Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região

Uma pesquisa realizada em Campinas mostra que, apesar das mudanças no mercado de trabalho e do avanço das ocupações precárias, a defesa dos direitos trabalhistas continua forte entre a população.
O levantamento também desmonta a ideia de que os sindicatos perderam importância: 72,2% dos entrevistados consideram as entidades sindicais importantes para a defesa dos direitos da classe trabalhadora.
Intitulado “Percepções sociais sobre trabalho, sindicalismo e direitos, o estudo ouviu 1.412 pessoas no centro de Campinas, em julho de 2025. A pesquisa tem grau de confiança de 95% e margem de erro de 3%.

Direitos seguem como referência para a população
Os resultados deixam uma mensagem clara: 97,2% dos entrevistados afirmam que todos os trabalhadores devem ter seus direitos assegurados.
A defesa de melhores condições de trabalho também aparece de forma expressiva em pautas que estão no centro das mobilizações do movimento sindical.

 

 

A pesquisa também aponta apoio de 71,4% à estabilidade dos servidores públicos.
Os números contrariam discursos que apresentam os direitos trabalhistas como algo ultrapassado. Mesmo entre trabalhadores que preferem atividades autônomas ou rejeitam determinados empregos formais, a defesa dos direitos permanece elevada.
Para Andréia Galvão, professora do IFCH/Unicamp e uma das pesquisadoras, esse resultado mostra que a preferência pelo trabalho por conta própria não significa rejeição à CLT. Uma das explicações apontadas pela pesquisadora está na própria qualidade dos empregos disponíveis, muitas vezes marcados por baixos salários, jornadas extensas, insegurança e poucas perspectivas de crescimento profissional.
Entre os participantes, 68,9% recebiam até três salários mínimos na época da pesquisa.

Trabalho ruim é o problema, não a Carteira assinada
Entre 300 trabalhadores não assalariados e trabalhadoras domésticas entrevistados, 53,7% afirmaram que não gostariam de trabalhar com carteira assinada. Outros 25,2% disseram que gostariam, enquanto 16,7% condicionaram a resposta à proposta de emprego.
O dado, isoladamente, poderia alimentar a interpretação de que os trabalhadores passaram a rejeitar o emprego formal. O restante da pesquisa, porém, aponta outra direção.
A enorme adesão aos direitos trabalhistas sugere que o problema não está na existência da carteira assinada, mas nas condições concretas oferecidas por uma parcela dos empregos formais.
As expectativas para o futuro ajudam a compreender esse cenário:

  • 35,9% dos entrevistados desejam abrir o próprio negócio;
  • 25,4% querem se aposentar;
  • 12,3% pretendem ingressar no serviço público por concurso;
  • somente 8,5% citaram como objetivo conseguir um bom emprego com carteira assinada.

O professor e pesquisador do Cesit/Unicamp, José Dari Krein, destaca outro elemento: o aumento da escolaridade não foi acompanhado, na mesma proporção, pela criação de empregos com melhores salários e condições. O resultado é a frustração de trabalhadores que estudaram mais, conquistaram diplomas e ainda encontram postos precários ou incompatíveis com sua formação.

Maioria reconhece que sindicato faz diferença
O terceiro eixo da pesquisa, dedicado ao sindicalismo, traz resultados especialmente importantes para a organização dos trabalhadores.
Embora apenas 14,4% dos entrevistados fossem sindicalizados, a visão sobre a importância dos sindicatos aparece de forma muito mais ampla:

 

 

A pesquisa também testou posições de rejeição às entidades sindicais. A alternativa deque “os sindicatos não deveriam existir” teve adesão média de apenas 7,95%.
Os números indicam que críticas ao funcionamento ou à atuação de determinadas entidades não significam uma rejeição ao sindicalismo como instrumento de defesa coletiva.
Há outro resultado que merece atenção: 34% dos participantes afirmaram que nunca tiveram oportunidade de se sindicalizar.
Este dado aponta um desafio direto para o movimento sindical. Existe uma parcela expressiva da população trabalhadora que reconhece a importância das entidades, mas ainda não foi alcançada por uma experiência concreta de organização sindical.

Sindicalismo tem terreno para crescer
Os dados de Campinas mostram que há espaço para ampliar a sindicalização, principalmente entre os trabalhadores mais jovens, os setores de serviços, os trabalhadores informais e aqueles submetidos às novas formas de contratação.
A distância entre os 14,4% de sindicalizados e os 72,2% que reconhecem a importância dos sindicatos na defesa dos direitos revela um potencial de organização que não pode ser desprezado.
Transformar esse reconhecimento em participação exige sindicatos presentes nos locais de trabalho, capacidade de ouvir as novas demandas da classe, ação permanente contra a precarização e luta concreta por salário, jornada, emprego e direitos.
O resultado sobre a greve também reforça essa perspectiva. Se quase três em cada quatro entrevistados reconhecem a paralisação como instrumento legítimo, a ideia de que a população rejeita toda forma de mobilização coletiva não encontra respaldo na pesquisa.

Aposentadoria também preocupa
O levantamento identificou forte insegurança sobre o futuro.

 

 

Para Andréia Galvão, a combinação entre empregos precários, períodos de informalidade e mudanças nas regras previdenciárias ajuda a explicar essa incerteza.
O cenário reforça a importância da defesa de relações de trabalho que garantam não apenas renda imediata, mas também direitos de longo prazo.

Pesquisa seguirá para etapa nacional
A equipe responsável pelo estudo prevê a realização de grupos focais para aprofundar a análise das respostas e aperfeiçoar os instrumentos de pesquisa.
A próxima etapa será ainda mais ampla: os pesquisadores pretendem realizar um levantamento nacional em 2027.
Os primeiros resultados encontrados em Campinas já deixam uma conclusão importante para o debate público: em meio às transformações do mercado de trabalho, direitos, redução da jornada, greve e organização sindical continuam com forte respaldo social.
Para o movimento sindical, existe também o recado de que milhões de trabalhadores podem reconhecer a importância da organização coletiva sem ainda participar diretamente de um sindicato.

Responsáveis pela Pesquisa

O trabalho foi desenvolvido pelos professores Andréia Galvão, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, e José Dari Krein, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, além das pesquisadoras Patrícia Trópia, Ana Paula Colombi, Ariella Araújo e Elaine Amorim, ligadas à Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reconfiguração do Trabalho (Remir).
Estudantes do IFCH participaram da aplicação dos questionários. O estudo contou ainda com apoio do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), por meio de projeto financiado pelo Fundo Brasil, e integra atividades do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho), ligado ao CNPq.

 

Com informações do Jornal da Unicamp - Edição 748, de 17 a 3 de agosto de 2026 (pág. 6)

 

Foto da Capa: Assembleia da Campanha Salarial na John Deere, em Indaiatuba - Arquivo do Sindicato

 

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