O Hospital de Clínicas da Unicamp abriu um atendimento específico para pessoas que perderam o controle sobre jogos e apostas eletrônicas. O serviço é oferecido pelo Ambulatório de Substâncias Psicoativas, o Aspa, ligado ao setor de Psiquiatria do hospital.
O acolhimento acontece todas as quartas-feiras, das 8h às 11h30, no Ambulatório de Psiquiatria, localizado no segundo andar do HC da Unicamp. Não é necessário marcar consulta: a pessoa interessada deve procurar diretamente a recepção do ambulatório.
Para os trabalhadores e trabalhadoras de Campinas e região, a abertura desse atendimento representa uma nova porta de entrada para enfrentar um problema que pode comprometer o salário, provocar endividamento, adoecer famílias e destruir relações pessoais e profissionais. A iniciativa também reforça a importância da Unicamp como referência pública de saúde e conhecimento para toda a região.
Casos de endividamento chegaram ao ambulatório
A criação do serviço ocorreu depois que profissionais do Aspa passaram a identificar, entre os pacientes, um número crescente de casos de endividamento provocado por bets e outros jogos eletrônicos.
Inicialmente, o ambulatório atendia principalmente pessoas com problemas relacionados ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas. Com o tempo, começaram a surgir pacientes cuja principal dificuldade era uma dependência comportamental, especialmente ligada às apostas pelo celular. Diante dessa demanda, a equipe decidiu organizar um atendimento específico.
O chamado transtorno do jogo, também conhecido como ludopatia, ocorre quando a pessoa perde o controle sobre quando começa a apostar, com que frequência joga, quanto dinheiro utiliza e por quanto tempo permanece nessa atividade. Aos poucos, a aposta ocupa o lugar de outros interesses e continua mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares.
Tentativa de recuperar perdas aumenta o prejuízo
Um dos comportamentos mais perigosos é continuar apostando para tentar recuperar o dinheiro perdido. Nessa situação, a pessoa acredita que uma nova aposta poderá pagar as dívidas anteriores. Na prática, o gasto costuma aumentar e o endividamento se agrava.
Segundo os especialistas do HC, já existem pacientes devendo dinheiro a bancos, familiares e até agiotas. A equipe também relata casos de pessoas que comprometeram o próprio salário e até valores recebidos na rescisão do contrato de trabalho.
Não se trata, portanto, de uma simples diversão que “saiu do controle”. O avanço das plataformas de apostas, a facilidade de acesso pelo celular e a publicidade permanente alimentam a falsa promessa de ganho rápido. Para quem vive do salário, o prejuízo pode significar falta de dinheiro para alimentação, aluguel, contas básicas e sustento da família.
Homens e pessoas de baixa renda estão mais expostos
Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, o Lenad III, apresentados pela Unicamp, mostram que quem utiliza sites e aplicativos de apostas possui uma probabilidade quatro vezes maior de desenvolver problemas relacionados ao jogo.
Entre adolescentes e pessoas de menor renda, o risco é três vezes maior. Entre os homens, a incidência é duas vezes superior. Os números mostram que a dependência não atinge todos da mesma maneira: ela avança com mais força justamente sobre grupos social e economicamente mais vulneráveis.
A dependência também pode estar associada a ansiedade, depressão, solidão, vergonha e dificuldade para reconhecer que existe um problema. Muitas pessoas escondem as perdas, mentem sobre os gastos ou demoram a pedir ajuda por medo do julgamento de familiares e amigos.
Como será o tratamento
Os adultos atendidos pelo Aspa passam inicialmente por uma triagem, seguida de avaliação psiquiátrica e participação em um grupo de acolhimento.
As atividades coletivas permitem que cada pessoa relate sua experiência, reconheça os prejuízos provocados pelo jogo e desenvolva formas de interromper o comportamento compulsivo. Quando necessário, a equipe também poderá indicar medicamentos para ajudar no controle do impulso de apostar.
No caso dos adolescentes, o atendimento é individual, considerando as particularidades dessa fase da vida.
Unicamp também capacitou profissionais da rede
Além de abrir o ambulatório, a equipe do Aspa realizou, em maio, uma capacitação sobre jogos e apostas eletrônicas para mais de 100 profissionais de Campinas e estudantes da área da saúde da Unicamp.
A formação dos profissionais é fundamental para que o problema seja identificado antes que o endividamento e o adoecimento cheguem a situações extremas.
Confira onde buscar atendimento
Local: Ambulatório de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Unicamp, segundo andar
Atendimento: todas as quartas-feiras
Horário: das 8h às 11h30
Agendamento: não é necessário
Como acessar: comparecer diretamente à recepção do ambulatório
Quem percebe que não consegue diminuir ou interromper as apostas deve procurar ajuda.
Familiares também precisam tratar o problema com seriedade, evitando humilhações e acusações.
Dependência não se enfrenta com vergonha ou silêncio, mas com acolhimento, tratamento e acesso à saúde pública.
Com informações do Portal da Unicamp e do Hospital de Clínicas da Unicamp