As apostas online cresceram com força no Brasil porque cabem no bolso, no intervalo do almoço, no ônibus, no banheiro da fábrica e na tela do celular.
O problema é que a propaganda vende “diversão”, mas o sistema foi feito para prender a atenção, estimular a repetição e empurrar o apostador para a lógica mais perigosa: perder, apostar de novo e tentar recuperar o prejuízo.
Segundo o Banco Central, entre janeiro e março de 2025 os brasileiros destinaram entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês às bets.
Em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via Pix para apostas; cerca de 5 milhões de beneficiários apostaram, e 70% eram chefes de família.
Máquina de atacar salário
A frase “joga quem quer” ignora a força da propaganda, dos influenciadores, dos bônus falsos, dos jogos rápidos e da ilusão de controle.
O trabalhador entra achando que vai ganhar um extra. Quando percebe, já usou dinheiro do mercado, do aluguel, da conta de luz, do remédio, da parcela do cartão ou do vale.
A CNC estima que, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência associada às bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista e pode ter levado 270 mil famílias à inadimplência severa, com atrasos de 90 dias ou mais. A própria entidade afirma que as bets deixaram de ser simples entretenimento e viraram risco para a saúde financeira das famílias.
Endividamento, vergonha e isolamento
O impacto das bets aparece dentro de casa antes de aparecer nas estatísticas. Vem em forma de mentira, irritação, pedido de empréstimo, venda de bens, briga familiar, ansiedade, noites mal dormidas e vergonha. Muitas pessoas escondem o problema até a situação explodir.
O Brasil já vive um cenário grave de endividamento. Em abril de 2026, 80,9% das famílias brasileiras estavam endividadas, recorde da série da Peic/CNC, e 29,7% tinham contas em atraso. O cartão de crédito aparece como uma das principais portas da dívida, justamente o recurso que muitos trabalhadores usam para cobrir buracos abertos pelas apostas.
Adoecimento mental também é consequência
O Ministério da Saúde reconhece que o jogo patológico, também chamado de transtorno do jogo, envolve dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.
A condição pode estar associada a ansiedade, depressão, culpa e isolamento social. Entre os sinais de alerta estão dificuldade de parar, mentiras sobre apostas, comprometimento do orçamento familiar, irritação quando não joga e prejuízo nas relações pessoais e profissionais.
Especialistas também alertam para o desenho viciante das plataformas. À Radis/Fiocruz, o psicólogo Altay de Souza, doutor em Psicologia Experimental pela USP, afirmou que as plataformas são desenhadas para gerar dependência, combinando acesso fácil, propaganda massiva e recompensa imediata. Ele também relata aumento de casos com ansiedade, depressão, crises de pânico e ideação suicida associados ao uso compulsivo das bets.
Ludopatia: vício em apostas afeta a vida profissional
Queda de atenção, atrasos, faltas, pedidos constantes de adiantamento, endividamento com colegas, uso do celular durante a jornada, conflitos e risco de acidentes. Em casos graves, o trabalhador adoece a ponto de não conseguir trabalhar.
Dados obtidos pelo Intercept Brasil apontam que, entre junho de 2023 e abril de 2025, o INSS concedeu 276 auxílios-doença por ludopatia, alta superior a 2.300% nas concessões mensais. O levantamento também indicou que 73% dos beneficiários eram homens e que a maior parte estava em idade produtiva. O Ministério da Previdência informou que, em 2025, o país concedeu 4,1 milhões de benefícios por incapacidade temporária, com transtornos mentais e comportamentais entre os grupos relevantes de afastamento.
Leis e medidas: regular não basta, tem que fiscalizar
As apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018, no caso das apostas esportivas, e pela Lei nº 14.790/2023, que incluiu jogos online. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente, com sites usando a extensão “.bet.br”.
A Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 prevê regras de “jogo responsável”, como ferramentas de limite de apostas, autoexclusão, informação sobre riscos, apoio a jogadores com sinais de problema e monitoramento de comportamentos de risco. Também há normas de 2025 e 2026 para impedir o uso de sistemas de apostas por beneficiários do Bolsa Família, BPC e participantes do Novo Desenrola Brasil.
É urgente que o Brasil restrinja publicidade agressiva, responsabilize influenciadores, bloqueie operadores ilegais, amplie tratamento no SUS e impeça que a indústria das bets capture o salário dos trabalhadores.
Como se proteger
A primeira medida é parar de tratar aposta como renda extra. Bet não é investimento, não é bico, não é complemento salarial. É risco calculado para favorecer a plataforma.
Quem percebe perda de controle deve tomar medidas práticas: excluir aplicativos, bloquear notificações, usar a plataforma de autoexclusão, retirar cartões cadastrados, não apostar para “recuperar” perda, combinar controle financeiro com alguém de confiança e procurar ajuda antes que a dívida vire colapso.
O Ministério da Saúde informou que mais de 574 mil pessoas já usaram a Plataforma Centralizada de Autoexclusão; 41% citaram perda de controle e impactos na saúde mental como motivo.
Onde procurar ajuda
O SUS oferece atendimento para problemas relacionados a jogos e apostas nas UBS e nos CAPS, além de teleatendimento pelo Meu SUS Digital. O serviço é gratuito e confidencial. A pessoa também pode buscar orientação pela Ouvidoria do SUS, no telefone 136.
Se houver pensamento de suicídio, risco de autolesão ou desespero intenso, a orientação é procurar emergência imediatamente: SAMU 192, UPA, pronto-socorro ou alguém de confiança. O CVV atende pelo 188, 24 horas por dia, gratuitamente.
Sindicato alerta: trabalhador sozinho não consegue pagar essa conta
O trabalhador que está passando por isso não deve se isolar ou enfrentar sozinho. Procure ajuda, converse com alguém de confiança e acione o cipeiro combativo e/ou o Sindicato.
Da mesma forma, quando o problema aparecer no local de trabalho, a resposta das empresas não pode ser só punição e demissão. É preciso avaliar caso a caso, preservar sigilo, orientar afastamento médico quando necessário, combater assédio e criar políticas de saúde mental.
Juntos somos mais fortes!